Ah, memória de tormento, era um dezembro cinzento
Na lareira um fogo lento tinha brilhos espectrais
Esperava pelo dia. Tentando esquecer, eu lia
Esquecer a que estaria entre os anjos celestiais
Alguém deve estar chegando
Apesar de ser tao tarde
Por Lenora estao gritando
Vozes vêm de toda parte
Espreitando o escuro horrendo, eu, ali, tudo temendo
Entao gritei: “Senhor, lamento, mas chegar a horas tais!”
“Ha alguém ali, é certo”, disse eu, “alguém desperto”
Abri entao a minha porta aos silêncios sepulcrais
Alguém deve estar chegando
Apesar de ser tao tarde
Por Lenora estao gritando
Vozes vêm de toda parte...
(corvos)
A janela abri, nervoso e voando, majestoso
Entrou um Corvo tao vistoso, que pousou em meus portais
“Corvo negro, renegado com o topete entrecortado
Qual o teu pomposo nome, nas moradas abissais?”
Corvo antigo e destinado por alguém tao transtornado
Quis saber seu predicado, e disse o corvo: “Nunca mais”
Mas depois ficou calado, como se, tendo falado,
Tivesse a alma esgotado em palavras tao cabais
Minh´alma estremeceu
Com seus olhos bestiais
Em tristeza eu meditava
Sob a luz dos castiçais
O ar entao ficou mais denso, como se um vaso de incenso
Em maos de anjos, volteasse numa dança em espirais
Gritei, foi Deus quem o mandou, esse Corvo que adentrou
Pra que eu esqueça a Lenora e essas mágoas tao brutais
Perguntei se lá no Édem
Entre os anjos celestiais
Encontrarei minha Lenora
Disse o Corvo: “Nunca mais”.